A endometriose não se limita aos órgãos reprodutivos. Entenda como e onde a doença pode surgir em locais distantes do útero, como intestino, diafragma e até mesmo nos pulmões.
O que é endometriose e como ela se espalha?
A endometriose é uma doença inflamatória crônica definida pela presença de um tecido semelhante ao endométrio (a camada que reveste o útero por dentro) em locais fora da cavidade uterina. A teoria mais conhecida para explicar sua origem é a da menstruação retrógrada, na qual o sangue menstrual, em vez de ser totalmente expelido, reflui pelas trompas e se deposita na cavidade pélvica. No entanto, essa explicação não é suficiente para justificar todos os casos da doença, especialmente quando ela surge longe da pelve.
Para que a endometriose se instale, não basta que as células cheguem a um novo local. É preciso que o sistema imunológico falhe em sua função de “limpeza”, permitindo que esse tecido invasor sobreviva, se multiplique e crie seu próprio suprimento de sangue. Pense nessas células como sementes que, ao invés de caírem apenas no jardim ao redor (a pelve), pegam carona em correntes de ar e podem aterrissar em terrenos distantes. Se o solo desses novos locais for fértil e não houver quem o limpe, uma nova planta pode crescer ali.
Esse fenômeno explica por que a doença é tão complexa e suas manifestações, tão variadas. A ciência hoje entende que a endometriose extrapélvica, embora menos comum, é uma realidade que exige atenção e um raciocínio diagnóstico que vá além dos sintomas ginecológicos clássicos.
As rotas de viagem: os mecanismos da endometriose extrapélvica
Se a menstruação retrógrada explica a endometriose pélvica, como as lesões chegam a órgãos distantes? A principal teoria para isso é a da “metástase benigna“. Nesse processo, as células endometriais conseguem invadir pequenos vasos sanguíneos ou linfáticos. Uma vez dentro desses canais, elas são transportadas pela circulação para praticamente qualquer parte do corpo. Esse mecanismo é como um sistema de entregas expresso: uma encomenda que deveria ficar no bairro acaba entrando na malha de distribuição nacional e pode ser entregue em um endereço completamente inesperado, como os pulmões ou linfonodos.
Outras teorias complementam esse quebra-cabeça. Uma delas sugere que células-tronco, originadas na medula óssea ou no próprio endométrio, podem viajar pelo corpo e se diferenciar em tecido endometrial ao se fixarem em outros órgãos. Outra hipótese, a da metaplasia celômica, postula que certas células que revestem órgãos e cavidades já possuem a capacidade de se transformar em tecido endometrial sob estímulos hormonais ou inflamatórios, o que explicaria casos raríssimos de endometriose em homens. Há ainda a endometriose iatrogênica, que ocorre quando o tecido é acidentalmente transportado durante um procedimento cirúrgico, como uma cesariana, podendo levar ao surgimento de focos na cicatriz da parede abdominal.
Locais e sintomas: mapeando a endometriose fora da pelve
A endometriose extrapélvica pode afetar diversos órgãos, e os sintomas geralmente acompanham o ciclo menstrual, piorando durante o período. A localização mais comum fora dos órgãos ginecológicos ainda é o trato intestinal, onde a doença pode causar dor para evacuar, inchaço, diarreia ou constipação cíclica. Contudo, a doença pode ir muito além.
– Diafragma e Tórax: Quando a endometriose atinge o diafragma (o músculo que separa o tórax do abdômen), pode causar dor no ombro direito, no pescoço ou na parte superior do abdômen, que piora com a respiração profunda durante a menstruação. Se as lesões chegarem aos pulmões, podem provocar tosse com sangue (hemoptise catamenial) ou dor no peito. É como se um inquilino indesejado se instalasse no sistema de ventilação de uma casa, causando ruídos e problemas estruturais a cada vez que é acionado.
– Trato Urinário: Focos na bexiga ou nos ureteres podem levar a dor ao urinar, sangue na urina ou dor lombar cíclica.
– Parede Abdominal e Cicatrizes: É comum em cicatrizes de cirurgias ginecológicas, formando nódulos dolorosos que aumentam de tamanho e sensibilidade no período menstrual.
– Outros locais raros: Embora extremamente incomuns, já foram descritos casos de endometriose em locais como o cérebro, a pele e os músculos.
O diagnóstico desses casos é desafiador, pois os sintomas podem ser confundidos com os de outras doenças. Por isso, a investigação de sintomas cíclicos, mesmo que não sejam ginecológicos, é fundamental para um diagnóstico correto e um tratamento eficaz.
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Revisão técnica
Título de especialidade ginecologia e obstetrícia (TEGO)
Título sociedade brasileira de cirurgia videolaparoscopica (SOBRACIL)
Título endoscopia ginecológica – FEBRASGO



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