Endometrioma e Gravidez: Remover Cisto Ovariano Antes de Tentar Engravidar?

A decisão de remover ou não um endometrioma antes de tentar engravidar é complexa e envolve a análise de riscos e benefícios. Entenda os fatores que guiam a orientação médica.

A presença de um endometrioma – um cisto de endometriose no ovário – levanta uma das dúvidas mais comuns entre mulheres que desejam engravidar: é preciso fazer uma cirurgia para removê-lo antes de iniciar as tentativas? A resposta não é um simples “sim” ou “não”. A decisão depende de um balanço cuidadoso entre os potenciais danos que o cisto pode causar aos óvulos e os riscos que a própria cirurgia representa para a reserva ovariana.

A conduta ideal é sempre individualizada, levando em conta fatores como a idade da paciente, a presença e intensidade de dor, o tamanho dos cistos e, principalmente, a saúde geral dos ovários. Compreender os dois lados dessa balança é o primeiro passo para uma decisão compartilhada e consciente junto ao seu médico especialista.

O dilema do endometrioma: Por que se cogita a remoção?

A principal preocupação com a manutenção de um endometrioma é o seu impacto no ambiente ovariano. Esses cistos são preenchidos por um sangue antigo, que, ao se degradar, acumula altíssimas concentrações de ferro livre. Esse excesso de ferro desencadeia um processo de estresse oxidativo intenso, uma espécie de “ferrugem” celular que é tóxica para as células vizinhas.

Esse fenômeno, conhecido como ferroptose, pode danificar as mitocôndrias – as usinas de energia – dos óvulos que estão se desenvolvendo próximos ao cisto. A manutenção de um endometrioma é como ter uma bateria velha e enferrujada dentro do delicado maquinário do ovário; mesmo que não impeça o funcionamento geral, ela pode vazar substâncias que comprometem a qualidade das peças mais sensíveis ao redor, que são os folículos ovarianos. Por isso, em alguns cenários, a remoção cirúrgica é considerada para “limpar” esse ambiente tóxico antes da concepção.

O outro lado da moeda: Os riscos da cirurgia para a fertilidade

Se por um lado o cisto pode ser prejudicial, a cirurgia para removê-lo não é isenta de riscos. O procedimento de retirada de um endometrioma, por mais cuidadoso que seja, pode levar à remoção acidental de tecido ovariano saudável. A parede do cisto está frequentemente aderida ao ovário, e separá-los pode ser um desafio. É como tentar remover uma mancha profunda de um tecido delicado; mesmo com a melhor técnica, sempre há o risco de puxar alguns fios saudáveis junto, afinando e enfraquecendo o tecido.

Na prática, isso se traduz em uma potencial diminuição da reserva ovariana, que é a quantidade de óvulos que a mulher ainda possui. Estudos mostram que os níveis do hormônio antimülleriano (AMH), um marcador da reserva ovariana, podem cair após a cirurgia. Por essa razão, a indicação cirúrgica para mulheres sem dor e que planejam engravidar deve ser ponderada com extrema cautela, especialmente em casos de cistos pequenos ou se a reserva ovariana já for baixa.

Fertilização in Vitro e a presença do endometrioma: O que as evidências dizem?

O cenário muda significativamente quando a Fertilização in Vitro (FIV) entra na equação. A FIV contorna muitos dos problemas causados pela endometriose no ambiente pélvico. Evidências científicas recentes e robustas mostram que, ao contrário do que se temia, a simples presença de um endometrioma não parece reduzir as taxas de sucesso da FIV.

Estudos demonstram que os óvulos coletados de mulheres com endometriomas têm a mesma capacidade de serem fertilizados e de formarem embriões geneticamente saudáveis (euploides) quando comparados aos de mulheres sem a doença. A FIV funciona como uma ponte aérea que resgata os óvulos diretamente dos ovários, levando-os para a segurança do laboratório. Lá, longe do ambiente inflamatório da pelve, o encontro com o espermatozoide e as fases iniciais do desenvolvimento embrionário ocorrem em um ambiente controlado e otimizado.

Isso explica por que, para muitas pacientes, especialmente aquelas com endometriomas, mas sem endometriose profunda infiltrativa, a FIV pode ser uma estratégia mais eficaz e menos invasiva do que uma cirurgia prévia para remoção do cisto. A decisão, portanto, deve considerar se a meta é a concepção natural ou via tratamento de reprodução assistida.

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Aviso: Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica. Em caso de sintomas ou dúvidas, procure um profissional de saúde.

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Revisão técnica

Foto de Dra. Luísa Ramajo

Dra. Luísa RamajoGinecologia e Obstetrícia | CRM 258949Residente de Ginecologia e Obstetrícia da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo
Cofundadora da Endolife.IA

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